Caro pedaço de papel,
Sei que bem, é simplesmente algo que não pode me responder. Tudo bem, estou ciente disso e não estou louco, pode ficar tranqüilo. Mas bem, gostaria que, se possível, pudesse me ouvir nesse momento.
Eu sei que bem, a vida passa, inclusive para folhas de papel. A caneta, uma hora, parece não ter mais a mesma graça sobre aquela velha superfície, um dia branca. Hoje, em tons amarelados, ela retém ainda as marcas de tudo que já passou. Pequenas cicatrizes, marcas de um passado cheio de acontecimentos e coisas fantásticas... ou não.
Claro que bem, meu caro amigo, talvez entenda como as coisas foram e são hoje. Pequenas palavras que hoje parece que não fazem tão sentido ou já estão jogadas nas bordas esquecidas e recortadas de você. Ou talvez ainda, pequenos nomes, telefones e recados em seus pedaços, hoje dobrados ou esquecidos em algum canto desse mundo.
Talvez, papel, você tenha visto muito da vida, assim como eu. Dias que bem, as palavras correm mais rápidas do que sua capacidade de absorver a tinta da velha caneta que reside sobre a mesa, ou talvez de tantos corretivos e passadas de borracha que já desgastam a superfície, antes uniforme. O branco agora se tornando um cinza pálido, gélido, com tantas memórias de antes.
Você já sentiu que muitas das palavras que você guardava contigo hoje já não enxerga mais entre suas entrelinhas? Pequenas palavras que te traziam uma função, um motivo. Pequenos desenhos, piadas e pensamentos de tristeza e amor, que antes moravam em ti, hoje parece que se tornaram ultrapassados e desgastados depois de tantos apagados e rabiscos de seu novo uso.
É meu caro amigo papel, talvez, pense que as palavras talvez ainda tenham esperança de voltar mas bem, algumas vezes aqueles pequenos termos já não te pertençam mais...
Ouvindo:
"Bandolins"
Oswaldo Montenegro
Ao Vivo: 25 Anos - 2004

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